domingo, 2 de junho de 2013

SEMINÁRIO LAVELLE
PROJETO “EDUCAÇÃO SEM LIMITES”

A CRIANÇA COM BAIXA VISÃO, ASSOCIADA OU NÃO A OUTRAS DEFICIÊNCIAS, EM SALA DE AULA REGULAR
Maio de 2013/ Florianópolis - SC

Ministrantes: Ana Lucia Pascali Rago, fisioterapeuta, especialista em psicopedagogia e coordenadora do Setor de Visão Subnormal da Santa Casa de S. Paulo e dos Projetos Lavelle Fund e Perkins Internacional. Luciana P. Cardoso, fisioterapeuta do Setor de Visão Subnormal da Santa Casa de SP, especialista em educação de crianças com deficiência múltipla. Ambas são consultoras em baixa visão e deficiência múltipla pelo Programa Perkins Internacional e Lavelle Fund for the Blind.

CONTEÚDO DO SEMINÁRIO – material de apoio elaborado por Ana Lucia Pascali Rago.
Anatomia e fisiologia do sistema visual
A visão é uma função sensorial que depende da chegada da luz à retina através do bom funcionamento das diferentes estruturas oculares.
•          córnea e cristalino focalizam os raios incidentes sobre a retina
•          excitação dos fotorreceptores presentes na retina – cones e bastonetes - fenômenos fotoquímicos

Descrição: Globo Ocular - Corte
Fig. 1 – corte transversal do olho

O olho é um dos principais órgãos do aparelho visual altamente especializado e fotossensível, que associado às vias ópticas e aos centros visuais compõem as estruturas sensoriais responsáveis pelo processamento dos estímulos visuais. Fenômenos elétricos percorrem o trato óptico e chegam ao córtex occipital.

Descrição: Oftalmologia Geral
Fig.2 – esquema do sistema visual

O comportamento visual de uma pessoa expressa habilidade visual global e resulta da interação de diferentes funções visuais:
ACUIDADE VISUAL: é uma medida de resolução visual, isto é, a capacidade de discriminar detalhes com alto contraste.
SENSIBILIDADE AO CONTRASTE: é a capacidade de detectar a diferença de brilho (luminância) entre duas superfícies adjacentes.
CAMPO VISUAL: é o espaço dentro do qual um objeto pode ser visto enquanto o olho está fixando um determinado ponto.
VISÃO DE CORES: refere-se à capacidade de perceber e distinguir diferentes sombreamentos.
ADAPTAÇÃO VISUAL: habilidade do sistema visual em adaptar-se a diferentes condições de iluminação.
VISÃO BINOCULAR: resulta da coordenação de imagens dos dois olhos, percebidas simultaneamente, resultando em noção de profundidade.
FUNÇÕES ÓCULO-MOTORAS: são responsáveis por controlar a posição e os movimentos dos olhos e do olhar.

Principais causas de baixa visão na criança
CATARATA CONGÊNITA: opacificação do cristalino, que impede a passagem de luz para dentro do olho.
GLAUCOMA CONGÊNITO: aumento da pressão intra-ocular que pode causar lesão em algumas estruturas dos olhos, como na córnea ou nervo óptico.
RETINOPATIA DA PREMATURIDADE: surgimento de massa fibrosa na retina ainda em desenvolvimento do bebê prematuro. É causada por oxigênio em alta concentração que esses bebês recebem ao serem intubados nas UTIs neonatais. Pode variar do grau I ao V e pode levar ao descolamento da retina.
DOENÇAS INFECCIOSAS: doenças que podem ser transmitidas da mãe para o feto durante a gestação, tais como toxoplasmose, rubéola, sífilis, citomegalovírus, herpes genital. Quanto mais cedo (idade gestacional) ocorrer a contaminação maiores danos podem acometer o feto.
- Toxoplasmose Congênita: causa cicatriz na retina, especialmente na região da mácula.
- Rubéola Congênita: causa alteração na retina e pode causar também catarata congênita.
ALBINISMO: deficiência de pigmentação na retina que altera o seu funcionamento.
ATROFIA DE NERVO ÓPTICO: desenvolvimento incompleto do nervo óptico que causa alteração na condução das informações da retina para o córtex cerebral.
COLOBOMAS: malformações de estruturas oculares. Pode ocorrer, por exemplo, na retina, íris, nervo óptico.
DEFICIÊNCIA VISUAL CEREBRAL (DVC): causada por lesão no trato visual ou no córtex visual que pode ocorrer, por exemplo, em casos de hidrocefalia, traumas cranianos, malformações cerebrais.

Baixa Visão
A baixa visão corresponde a um comprometimento importante da função visual, porém não equivale à cegueira, termo que deveria ser empregado apenas em situação de ausência total de visão.
Na baixa visão há um resíduo visual e o objetivo dos profissionais que trabalham nessa área é determinar, junto com o paciente e sua família, qual o melhor procedimento a ser adotado de modo que a visão residual possa ser utilizada da melhor forma possível.

Definição de Baixa Visão
“Uma pessoa com baixa visão é aquela que possui uma deficiência da função visual, mesmo após tratamento e/ou correção do erro refrativo e tem uma acuidade visual menor que 6/18 (0,3) ou 20/60, no melhor olho, até a percepção de luz; ou um campo visual inferior a 10 graus a partir do ponto de fixação, mas usa ou é potencialmente capaz de usar a visão para planejamento e/ou execução de uma tarefa” (OMS, Bangkok – 1992).

Impacto da baixa visão no desenvolvimento global e aprendizagem
A visão é uma função aprendida, que se desenvolve rapidamente no primeiro ano de vida. Este desenvolvimento depende da combinação de dois fatores: maturação do sistema visual x experiências visuais
A VISÃO é um sentido TOTALIZADOR - tem superioridade sobre os outros sentidos porque é uma forma instantânea de ver o mundo, em segundos podemos absorver e apreender muitas informações.
O deficiente visual vai utilizar vias alternativas e vai, a partir de uma VISÃO ANALÍTICA, construir referências e chegar a um padrão completo para formar uma imagem mental. A exploração é mais lenta, pouco a pouco, visão parcelada. São necessárias funções superiores como ATENÇÃO e CONCENTRAÇÃO.
Desde muito cedo a aprendizagem se dá pela integração de informações de diferentes canais de percepção: visão, audição, cinestesia, tato, cheiro, desta forma a criança é capaz de elaborar um padrão completo.
A baixa visão pode afetar várias áreas do desenvolvimento da criança, tais como:

ASPECTO NEURO-MOTOR
•         atraso no DNPM - a visão é a principal fonte de estímulos e informações do ambiente em que vivemos. Ela estimula e governa movimentos e ações, estimulando o desenvolvimento.
•         alteração na motricidade fina - a visão rege a preensão e aumenta a atividade da mão
•         dificuldade na organização e orientação espacial - a criança explora o espaço visualmente e o experimenta com seu próprio corpo desenvolvendo o conceito de espaço e vivenciando diversas relações com esse espaço (dificuldades na orientação e mobilidade/ dificuldades pedagógicas)
•         prejuízo na organização e planejamento do ato motor

   COMUNICAÇÃO
•         Atraso no desenvolvimento da fala e da comunicação – o desenvolvimento da linguagem depende, entre outras coisas, do desenvolvimento sensório-motor e da observação do modelo.

APRENDIZAGEM
•      dificuldade no processo de integração sensorial - o SNC integra todas as informações sensoriais. A alteração em um ou mais dos canais de entrada sensorial pode desorganizar esse processo.
•      a construção do conhecimento depende da integração das ações sensório-motoras, que, coordenadas, ativam, organizam e estruturam o sistema nervoso.

ASPECTO EMOCIONAL
•         dificuldade na relação mãe-bebê - a mãe, muitas vezes, não percebe as respostas da criança frente às suas tentativas de comunicação, de brincar, de relacionar-se e torna-se desmotivada. A criança passa a ser menos estimulada e sente-se também desmotivada ao não ter suas tentativas de resposta compreendidas pelo outro.
•         insegurança e passividade - a visão permite à criança a antecipação dos acontecimentos.
•         desestruturação na dinâmica e relação familiar.
ASPECTO SOCIAL
•         maneirismos - podem aparecer quando a criança não aprendeu outras funções e então, ocupam-se dessa forma. Muitas vezes sinalizam uma necessidade da criança.
•         insegurança e passividade
•         limitação na percepção das ações e acontecimentos.

Avaliação Funcional da Visão
A avaliação funcional é de fundamental importância por conter dados de observação do desempenho visual da criança em termos práticos e qualitativos, além disso, informa o nível de desenvolvimento global e principalmente como a criança utiliza a visão residual para interação com as pessoas e com o mundo que a cerca.
No momento da observação é importante lembrar que existem diversos fatores que interferem na resposta visual:
•      Se o objeto é familiar ou estranho
•      Distância entre o observador e o objeto
•      Tamanho do objeto
•      Detalhes ou simplicidade do objeto
•      Cores
•      Contraste
•      Iluminação
•      Se o objeto está parado ou em movimento
•      Posição do objeto
•      Tempo disponível para olhar o objeto
•      Capacidade de comunicação entre o examinador e a criança
•      Estado de alerta
•      Posicionamento da criança

Em muitos casos, às vezes, a avaliação funcional é a única avaliação possível da visão. Em crianças com múltipla deficiência, muitas vezes é difícil compreender e isolar a contribuição de cada deficiência no desenvolvimento e aprendizagem.
Avaliação dos canais sensoriais
       O papel do cérebro é receber as informações provenientes do meio ambiente, interpretar essas informações e decidir como responder a elas. Tais informações chegam ao cérebro através dos canais sensoriais: audição, olfato, gosto, visão e tato. Sendo assim, é papel do cérebro integrar e processar os diferentes estímulos recebidos. Estimulação e conexão entre os sentidos são a chave para o desenvolvimento cognitivo.
       No bebê os neurônios começam a se conectar entre si através dos diferentes estímulos sensoriais enviados ao cérebro por meio das experiências e aprendizagem. Os neurônios devem trabalhar juntos, em rede, e a maioria das redes neuronais se forma apenas por meio da estimulação no ambiente. Experiências que se repetem ajudam a construir fortes rotas por onde a informação caminhará. Para as crianças com deficiência visual e múltipla, a Intervenção Precoce tem papel fundamental em prover muitas experiências multisenssoriais, que propiciam à criança oportunidades de usar a visão, audição, tato e outros canais sensoriais para obter informação do ambiente.
       Avaliar como a criança utiliza os diferentes canais sensoriais (principalmente tato, visão e audição) é a informação mais fundamental para desenvolver um apropriado plano de educação. Baseadas nestas informações recomendações podem ser feitas a respeito do meio, recursos e estratégias para aprendizagem, podendo-se, assim, assegurar que as atividades sejam oferecidas através do canal sensorial que foi determinado como o mais eficiente para a aprendizagem.
       A seguir será apresentada a ficha de avaliação dos canais sensoriais do Learning Media Assessment. Para que possamos colher informações consistentes é sugerido que os profissionais realizem no mínimo três encontros com a criança, em diferentes ambientes, que incluam atividades estruturadas e não estruturadas, ambiente familiar e não familiar e ambiente interno e externo.
USO DOS CANAIS SENSORIAIS[1]
Aluno___________________________________________________
Ambiente/Atividade________________________________________
Data_________________ Avaliador___________________________

        Atividade Observada                           Canais Sensoriais
___________________________________           V       T      A
___________________________________            V      T      A
___________________________________            V      T      A
___________________________________            V      T      A
___________________________________            V      T      A
___________________________________            V      T      A
___________________________________            V      T      A
___________________________________            V      T      A
___________________________________            V      T      A
___________________________________            V      T      A
___________________________________            V      T      A
___________________________________            V      T      A
___________________________________            V      T      A
___________________________________            V      T      A

ÿ Provável canal primário:_________________________________
o Provável canal secundário:_______________________________
Ao utilizarmos a ficha deveremos marcar o canal predominante com um quadrado e o canal secundário com um círculo em cada comportamento observado dentro de uma atividade. Ao final poderemos determinar o canal sensorial primário e secundário utilizado pela criança para a aprendizagem. Com base nesses resultados faremos as recomendações de qual o meio, recursos e estratégias são mais apropriados para o processo de ensino-aprendizagem para a criança avaliada.
Através dessa avaliação poderemos determinar o estilo de aprendizagem de cada criança:
·        Aprendizes cujo estilo predominante é o visual aprendem principalmente através do ver. Precisam ver e observar a linguagem corporal e expressões faciais, gostam de sentar perto, pensam em figuras, aprendem melhor a partir de apresentações visuais, gostam de tomar notas.
·        Aprendizes cujo estilo predominante é o auditivo aprendem principalmente através do ouvir, aprendem melhor através de discussões, ouvindo outras pessoas, ouvindo palestras, interpretam o significado através da linguagem (tom de voz, velocidade, volume), precisam ouvir um texto escrito.
·        Aprendizes cujo estilo predominante é o tátil-cinestésico aprendem fazendo, movendo-se, tocando. Precisam usar as mãos, precisam da prática, de atividades exploratórias. Podem se distrair ao se sentarem longe demais.
Os estilos de aprendizagem se estabelecem baseados no cérebro e suas conexões (características individuais), nas experiências e na deficiência.

Sugestões de Adaptações de Materiais e do Ambiente
O recurso que mais auxilia o bebê ou a criança com baixa visão é a AMPLIAÇÃO da imagem que chega à retina, pois assim, um maior número de células retinianas fotorreceptoras será sensibilizado.
Porém, existem também outros fatores ambientais que      interferem na resposta da criança:
-         Iluminação
-         Cor e contraste
-         Distância
-         Tempo
-         Organização do espaço
ILUMINAÇÃO
A hipersensibilidade à luz causa dor e desconforto. É preciso regular a quantidade de luz nesses casos.   Outras crianças precisam de mais luz.
Importante experimentar e observar a criança em várias situações.
•         Controlar quantidade, tipo, direção, posição da luz
•         Usar iluminação indireta
•         Evitar luz direta no olho da criança
•         Sentar a criança de costas para a janela
•         Reduzir o brilho das superfícies
•         Lâmpadas com reostato pode ajudar a controlar a quantidade de luz
•         Luz natural deve ser usada sempre que possível
•         Oferecer à criança oportunidade para que ela posicione a luz com independência
COR E CONTRASTE
•         Usar altos contrastes (preto e branco, azul escuro e amarelo, preto e laranja, preto e amarelo)
•         Usar objetos com cores fortes nas atividades de vida diária
•         Evitar superfícies com padrões confusos
•         Forrar superfícies de mesas, carteiras, etc pode ajudar a aumentar o contraste entre figura e fundo
•         Contornar atividades com canetas de cores fortes e traçado espesso
TAMANHO E DISTÂNCIA
•         Aproximar o estímulo – aumenta a imagem que a criança recebe
•         Aumentar o tamanho do objeto (letras impressas, figuras, etc.) pode ajudar – avaliar cada caso.
•         Posicionar a criança em local que propicie melhor eficiência visual
•         RECURSOS ÓPTICOS auxiliam para aumentar a imagem, tais como:
- Óculos para leitura
- Lupas de mão e lupas de apoio
- Telelupa
- Lupa eletrônica
TEMPO
•         A precisão e velocidade na performance em uma atividade diminui com a perda visual.
•         Localizar, reconhecer e agir perante um objeto requer mais tempo.
•         Para a criança com múltipla deficiência a atividade pode consumir ainda mais tempo!
•         O ESFORÇO VISUAL GERA FADIGA E DIMINUI O TEMPO DE ATENÇÃO
•         Aumentar o tempo de exposição do estímulo
•         Diminuir o tempo de algumas atividades que exijam muita atenção e esforço visual.
ORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO
•         Manter espaço limpo, sem aglomerado visual
•         Usar fita adesiva para sinalizar degraus e pisos
•         Reduzir artigos ao redor do objeto de atenção
•         Utilizar folha com pautas ampliadas
•         Orientar a criança para saltar uma linha
•         Demarcar o espaço que ela deve usar

Bibliografia
•         Ayres, A. Jean. (1998).  La integración sensorial y el niño.  México:  Trillas.
•         Bèziers, Marie-Madeleine; HUNSINGER, Yva. (1994). O bebê e a coordenação motora. 2a Edição.  São Paulo: Summus.
•         Brennan, V., Peck, F.; Lolli, D. Suggestions for modifying the home and school environment: a handbook for parents and teachers of children with dual sensory impairments. Watertown: Perkins School for the Blind.
•         Bruno, M.M.G. (1993). O desenvolvimento integral do portador de deficiência visual: da intervenção precoce à integração escolar. São Paulo: Laramara.
•         Cardoso, L. P.; Rago, A. L. P. (2007). Educação à vista. Baixa visão na escola. Guia de orientação. Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo.    
•         Dantas, A. M. & Moreira, A. T. R. (2006). Oftalmologia pediátrica. Rio de Janeiro: Cultura Médica.
•         Haddad, M. A. O., Sampaio, M. W., Kara-José, N. (2001). Baixa visão na infância. Manual básico para oftalmologistas. São Paulo: Laramara – Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual. 
•         Koenig, a. J. & Holbrook, m. C.  Learning media assessment of students with visual impairments. Texas: Texas School fot the Blind and Visually Impaired, s.d.
•         López, J. M. V. et al. (1994). Apuntes sobre Rehabilitación Visual. Madrid: Organización Nacional de Ciegos Españoles, Centro de Rehabilitación Básica y Visual.  http://foal.once.org/FOAL/pt/Biblioteca/
•         Rago, A.L.P. (2009). Adaptaciones y recursos opticos especiales. Submódulo do “Curso de Especialización para la Atención Temprana del Bebé y el Niño/a con Discapacidad Visual y Múltiple”, modalidade educação à distância. FOAL, Programa Internacional Hilton Perkins, ICEVI.
•         Sampaio, M. W.; Haddad, M. A. O.; Kara-José, N. (2001). Auxílios para baixa visão. Volume I.   São Paulo: Laramara – Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual.
•         Veitzman, S. (2000). Visão Subnormal. Rio de Janeiro: Cultura Médica; São Paulo: CBO
•         Wadsworth, Barry (1997). Inteligência e afetividade da criança na teoria de Piaget.  São Paulo: Pioneira.




[1] Koenig & Holbrook, “Learning Media Assessment of Students with Visual Impairments”. Texas School for the Blind and Visually Impaired, 1995. Tradução do original (Form 2).

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